Em documento enviado a Washington, UE diz não aceitar argumento de ‘segurança nacional’ para aplicação de taxas alfandegárias.

Os Estados Unidos enfrentam graves riscos a sua economia se colocarem taxas alfandegárias às importações de automóveis do restante do mundo. A União Europeia (UE) alertou Washington de que tanto esse bloco como o resto do mundo afetado por potenciais taxas comerciais norte-americanas podem responder. E se o fizerem, Washington se arrisca a ver dificultadas suas exportações no valor de 290 bilhões de euros (1,3 trilhão de reais), uma quantidade equivalente à que o país norte-americano importa de automóveis do restante do mundo (e que significa 19% de seu mercado exportador).

Esse é o conteúdo de um documento que Bruxelas enviou a Washington na sexta-feira, dia 29, publicado nesta segunda no jornal britânico Financial Times. Se for levado em consideração somente o impacto europeu, a cifra cai a 60 bilhões de euros (270 bilhões de reais) – o que os 28 países membros exportam a seu parceiro norte-americano nessa indústria –, como dizem fontes da UE.

A Europa tenta de todas as maneiras dissuadir seu tradicional aliado norte-americano de aprofundar a guerra comercial aberta ao anunciar tarifas alfandegárias ao aço e alumínio. Mesmo que a evidência econômica não pareça ser o motor que dirige as decisões de Donald Trump, a UE faz uma última tentativa para demonstrar os prejuízos econômicos que Washington enfrentaria em primeiro lugar ao introduzir essas travas comerciais.

A delegação de Bruxelas em Washington, autora do documento de 11 páginas enviado ao Departamento de Comércio norte-americano, destaca as consequências ao emprego. A presença de empresas europeias no setor do automóvel norte-americano sustenta 120.000 vagas de trabalho diretamente e outras 420.000 de maneira indireta. “Esses números refletem o compromisso a longo prazo das empresas europeias no mercado norte-americano”, diz o relatório.

No documento, a Comissão Europeia tenta fazer valer toda a sua influência econômica sobre Washington. Os fabricantes europeus de automóveis nos Estados Unidos forneceram quase 9,2 milhões de veículos a esse país no ano passado. Isso significa mais de um em cada quatro carros. Se for descontada a participação europeia em uma das três grandes marcas norte-americanas (a da Fiat na Chrysler), a contribuição da UE ainda chega a 16% dos carros. São dados oficiais do Executivo de Bruxelas, que exerce exclusivamente as atribuições comerciais na UE.

Bruxelas tenta dessa forma conscientizar Washington que sua economia enfrentaria grandes prejuízos, assim como suas trocas comerciais. Porque aproximadamente 60% dos automóveis produzidos pelas empresas europeias nos EUA são destinados à exportação, tanto à UE como a outros países. “Qualquer medida que prejudique essas empresas seria contraproducente e enfraqueceria a economia norte-americana”, diz a análise oficial, enviada no mesmo dia em que os chefes de Estado e de Governo concluíram em Bruxelas uma reunião que tratou, entre outros aspectos, da guerra comercial iniciada por Donald Trump.

Por fim, a UE não aceita o argumento de que os EUA aplicam essas medidas para sua própria segurança. Da mesma forma que não foram encontradas evidências de que os obstáculos contra o aço e o alumínio pudessem ser baseados nessa hipótese, Bruxelas novamente não os aceita. “Como somente os fabricantes norte-americanos são fornecedores da Defesa norte-americana, a indústria desse país está coberta contra a concorrência internacional. Nenhuma restrição comercial aos automóveis, reboques leves e componentes de automóveis pode ser justificada por motivos de segurança nacional”, finaliza.