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Brasília – Entre os anos de 2000 e 2013, o comércio entre a China e a América Latina cresceu nada menos que 2.400%, fazendo com que a dominação chinesa na região tornasse as coisas cada vez mais difíceis para os Estados Unidos. À exceção do México, a China é hoje o maior parceiro comercial de praticamente todos os principais países latino-americanos, como Brasil, Argentina, Colômbia, Chile, Peru, Paraguai e Venezela, entre outros.

Segundo André Cruz, Gerente de Acordos Comerciais da Thomson Reuters, a presença chinesa na América Latina está prestes a se tornar ainda mais forte com a construção do grande Canal da Nicarágua, que será financiado pelos chineses: “esse canal será mais longo e mais largo do que o Canal do Panamá, que é historicamente conhecido como um verdadeiro símbolo o poder americano naquela região. Ou seja, esse viria a ser o golpe de misericórdia da China no que um dia já foi a dominação americana em terras latino-americanas”.

Ao analisar a declaração feita recentemente em caráter reservado por autoridade americana informando que o presidente Donald Trump quer que os países da América Latina façam uma opção entre os Estados Unidos e a China como parceiro comercial, André Cruz afirmou que “o presidente Trump cometeria um grave equívoco ao colocar a América Latina contra a parede e isso abriria ainda maior espaço para a dominação chinesa na região, o que poderia ser o ínício do fim para os americanos na luta contra a China pela expansão na América Latina. A China está se inserindo tão fortemente na região que está se  tornando cada vez mais difícil para os países latinos se desvincularem dela”.

Mais que elaborar  um raciocínio geopolítico, o Gerente de Acordos Comerciais da Thomson Reuters cita fatos concretos para comprovar o crescimento da já altamente relevante presença chinesa na América Latina: “o gigante asiatico construiu uma usina hidrelétrica no Equador, que atende 35% da emanda no país inteiro. Já construiu duas usinas nucleares na Argentina, uma rodovia de 152 quilômetros na Colômbia e um porto de contêineres no Norte do Brasil. Além disso, possui participação de 23% na terceira maior empresa de energia do Brasil e tem, inclusive, criado relações de dependência pouco saudávaeis, como no caso do Equador, que teve 61% das suas necessidades de financiamento de governo atendidas pela  China em 2014, em troca de 90% de sua produção de petróleo. Quer dizer, a América Latina, parte por culpa própria dos Estados Unidos, está tão interconectada com a China que é difícil até dizer que haveria uma opção por parte da região em escolher um lado nessa guerra comercial entre Washington e Pequim”.

O especialista em Acordos Comerciais destaca também importantes medidas adotadas pelo governo chinês –como uma intensa troca de visitas de autoridades governamentais de alto nível e a decisão de Pequim de assumir o comando de uma renegociação  de um acordo destinado a substituir o  Tratado de Parceria Transpacífica depois que o presidente Donald Trump anunciou a retirada dos EUA desse mecnismo- para mostrar a diferença de postura entre as duas maiores potências do planeta em suas relações com a América Latina.

Segundo André Cruz,  “enquanto Donald Trump sequer visitou a região e recentemente cancelou sua participação na Cúpula das Américas, realizadas nos dias 13 e 14 de abril, em Lima, o presidente Xi Jinping não só esteve por aqui como anunciou um ambicioso plano de investimentos para os próximos dez anos, com o objetivo de dobrar o comércio bilateral e aumentar em 150%  o volume de investimentos chineses na região”.

Ele lembrou ainda que “há, inclusive, interesse por parte da China de se criar um acordo que venha a fazer frente ao Tratado de Parceria Transpacífica, o TPP. E sequer é preciso dizer que os Estados Unidos estão fora de tais planos, afinal de contas, a China está adotando estratégias mais liberalizantes enquanto que os Estados Unidos estão se fechando cada vez mais para o mundo. Difícil é afirmar que a China toma tais ações por convicções ideológias, o que pessoalmente acho mais difícil, do que por pura estratégia contra os EUA, o que, sem dúvida, é uma estratégia muito inteligente. O presidente chinês afirmou recentemente que se os Estados Unidos derem continuidade em sua investida tarifária, a China irá abir ainda mais o seu mercado para o restante do mundo”.